Resenha: Meus fantasmas
HQ premiada sobre traumas, doença mental e solidão
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HQ premiada sobre traumas, doença mental e solidão
Você já deve saber que eu adooooro uma autobiografia em quadrinhos, né?
Quadrinhos na Cia. lançou há pouco mais de um mês aqui no Brasil Meus fantasmas, da norte-americana Tessa Hulls (com tradução de Érico Assis), uma das graphic novels mais premiadas dos últimos anos. Acabei de ler e tô impactada.

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GARIMPADAS é uma seção da newsletter da Mina de HQ com dicas de livros.
São achados da minha curadoria (e também da minha estante), dedicadas a histórias com foco em diversidade e representatividade.
Como um convite para abrir espaço a obras que merecem ser desfrutadas com presença. Boa leitura!
Em Meus fantasmas, Tessa Hulls vai ao encontro de si mesma a partir do resgate e entendimento da história de três gerações de mulheres de sua família:
Sun Yi, jornalista de Xangai que viveu perseguições políticas depois da fundação da República Popular da China em 1949, fugiu para Hong Kong com a filha pequena, escreveu um livro sobre esses anos de sobrevivência e foi consumida por um colapso mental do qual nunca mais se recuperou.
Rose, filha de Sun Yi que cresceu carregando o peso da mãe, de quem cuidou por toda a vida, numa tripla jornada de trabalho para garantir cuidados e sustento a toda a família. O que lhe causou medos e traumas profundos.
Tessa, filha de Rose e neta de Sun Yi, que passou anos viajando para os cantos mais remotos do planeta antes de perceber que estava, na verdade, fugindo dos fantasmas da família. Até que decidiu encará-los de frente em uma viagem de volta à China com a mãe. Meus fantasmas é esse retorno.

Com uma pesquisa minuciosa sobre a história da própria família no contexto da história da China, Tessa levou quase quase dez anos para fazer esse que é seu primeiro livro. É o tipo de HQ que você lê devagar porque não quer que acabe. A cada página, a história contada em quadrinhos vai trazendo uma camada extra de emoção e conexão ao que o texto está dizendo. Escrever e desenhar a si mesma e a sua própria história torna ainda mais profundo esse mergulho de investigação pessoal e familiar. Um processo mútuo de entendimento e elaboração. Por isso eu gosto tanto de autobiografia em quadrinhos!
Tessa mostra o que acontece quando se enfrenta de frente um trauma intergeracional, quando o sofrimento de uma geração molda, silenciosamente, as seguintes, e do que se herda sem escolher. “Sofrer um trauma”, como a autora escreve no livro, “significa continuar organizando sua vida como se ele ainda estivesse acontecendo, inalterado e imutável.”

Tessa Hulls nasceu em 1984, na Califórnia, filha de mãe chinesa que imigrou para os Estados Unidos em 1970. É artista, escritora e aventureira: atravessou os Estados Unidos de bicicleta, trabalhou de bartender na Antártida, pintou murais em Gana e organizou clubes do livro no Alasca.

Meus fantasmas venceu o Pulitzer na categoria Memórias/Autobiografia, a primeira HQ a conquistar uma categoria regular do prêmio, historicamente reservado à literatura e ao jornalismo. Além disso, ganhou um Eisner de Melhor HQ Autobiográfica, um dos prêmios mais importantes do mundo dos quadrinhos. O livro também foi recomendado por nomes como Jason Lutes, autor de Berlim, e Thi Bui, autora de O melhor que podíamos fazer.
Para quem diz que não é uma pessoa leitora de quadrinhos, que não “sabe” ler HQs, este é um ótimo ponto de entrada, principalmente se tem interesse por temas como memória, identidade, laços familiares e saúde mental.
A verdade é que contar histórias sobre a vida de mulheres é sempre um ato político, assim como ler essas histórias. Significa buscar compreender a história do mundo a partir de vivências e pontos de vista muitas vezes invisibilizados. Meus fantasmas é um convite, espero que você aceite. =)
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