PATOS
Patos não é uma HQ sobre patos, ao menos, não apenas sobre eles.
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Patos não é uma HQ sobre patos, ao menos, não apenas sobre eles.
Patos – Dois anos nos campos de petróleo (WMF Martins Fontes, 2023) é mais uma dessas obras incríveis e que não recebem a atenção que merecem e, embora essa não seja uma prerrogativa exclusivamente feminina, a falta de alcance das produções femininas se soma a uma série de outras ações que acarretam o constante apagamento das mulheres em várias áreas que envolvem produção artística e intelectual.
Mas a importância da HQ de Kate Beaton vai muito, muito além de uma questão de gênero, embora este seja um tema central e seu trabalho. Porém, ter ganhado 2 prêmios Eisner não parece ser o suficiente para que todos os canais de pessoas que se dizem tão apreciadoras de quadrinhos estejam falando sobre ela.
Assim que soube do que supostamente se tratava Patos, automaticamente me lembrei de vários documentários sobre o fraturamento hidráulico (Fracking) que assisti há uns anos e lembro do quanto a então revolucionária técnica que se dizia inofensiva ao meio ambiente, me deixou impactada. Esses documentários mostravam fazendas, cidades e reservas indígenas que haviam sido completamente destruídas devido à exploração de petróleo e outros compostos no Norte dos EUA e Canadá, o que gerou uma série de protestos liderados inclusive por celebridades. Em um deles, um proprietário de uma pequena fazenda mostrava a região completamente árida, com o córrego que abastecia a área totalmente seco e diante da impossibilidade de venda, já que a terra perdera o valor, ele e sua esposa estavam passando fome.
Fraturamento hidráulico – Fonte: Funverd.org
Então, com a divulgação e o subtítulo de Patos, eu estava certa de que conheceria os bastidores e os detalhes dessa operação que tem devastado regiões inteiras, mas Patos não é sobre isso, ao menos, não apenas.
HQs biográficas e autobiográficas produzidas por mulheres têm um lugar muito especial no meu coração e na minha estante, porque consigo me conectar com as narrativas de forma que não sinto ser possível em outras produções e isso é uma característica minha. Por isso, ao ler sobre a experiência pessoal de Beaton em algumas empresas de extração de Petróleo, ainda que eu nunca tenha chegado nem perto de trabalhar em algo parecido (bom, trabalhei na maior agência de navegação do mundo, ou seja, indústria grande com algumas características predatórias comuns com a do petróleo), eu não pude deixar de relacionar essa experiência às minhas… já falo sobre elas.
A tentativa de escrever uma resenha parece um tanto pífia diante das inúmeras camadas que podem ser exploradas nessa HQ: é possível falar sobre capitalismo, sobre políticas públicas de trabalho e educação, sobre como é de interesse do capitalismo que as pessoas se mantenham endividadas pelo máximo de tempo possível, mas, diante dos atravessamentos que mais me definem, o assédio sexual detalhado ao longo das mais de 400 páginas é certamente o que mais me marcou.
Se 3 em cada 4 mulheres no mundo todo sofreu ou irá sofrer algum tipo de violência sexual relacionada ao gênero, e no Brasil o número de denúncias registradas de assédio sexual no trabalho só cresce, não é difícil de imaginar que muitas mulheres irão se identificar com o depoimento de Kate. Ainda que também esse tipo de violência não acometa apenas mulheres cis, o fato é que em uma cultura em que o assédio moral no trabalho é praticamente uma exigência em grande parte das instituições, denunciar as investidas dos colegas do sexo masculino, que, como entendemos em Patos, é algo tão normalizado que a maioria dos caras sequer se dá conta do quão violentas suas atitudes são, é muito burocrático.
Assim, Kate, suas irmãs e colegas, acabam se resignando de certa forma diante de situações que sentem não ter qualquer controle para mudar e o motivo de ela, suas irmãs, primos, tios, vizinhos, precisarem se submeter a condições tão insalubres de trabalho se deve a alguns fatores: falta de oportunidade na região que mora e descaso das autoridades e relação ao problema e, no caso de Kate, uma enorme dívida do financiamento estudantil que ela contraiu ao cursar sua faculdade.
Logo, diante da oportunidade de quitar seu débito o quanto antes, Kate parte em busca de um bom salário, mesmo tendo uma vaga ideia de como seriam as condições nos campos de petróleo. Ou seja, além de uma estrutura que por si só já quebraria o mais resistente dos seres humanos, ela se vê em uma realidade onde quase não há mulheres. Em algumas empresas a proporção é de 1 mulher para cada 50 homens… homens que estão vivendo sob condições não tão dignas longe de suas famílias, namoradas, filhos…
Por isso, Kate e outras mulheres tentam se apoiar no fato de que esses homens não estariam em condições normais para um bom julgamento moral e ético para conseguir sobreviver nesse meio tão hostil, onde suas tentativas de denunciar os assédios diários, ou até estupros, são respondidos com frases clichê como “você não sabia que era assim?”, “Por que veio então?”, “Você precisa criar uma casca mais grossa” – leia-se: “aceite a violência ou caia fora porque nós não iremos mudar e não nos importamos com você.”
Nesse sentido, é compreensível a tentativa da autora de enxergar algum humor na violência que sofreu durante dois anos, mas acredito que com o passar do tempo ela se dará conta que esta é uma estratégia para lidar com agressões que não são nem um pouco engraçadas. Ou talvez, como ela menciona na entrevista com o Érico Assis, a ideia era a de não deixar a HQ tão pesada (a gente sabe o quanto isso afastaria os homens cis da leitura, já que grande parte tende a diminuir o que sentimos nessas situações e a achar que reclamamos demais – “ninguém gosta de uma mulher reclamona, pesada”). Não funcionou pra mim: tendo eu mesma sido vítima de violências similares, eu só senti muita tristeza, revolta, impotência, ao mesmo tempo que me sinto grata por conhecer essa história e torcer para que o maior número de pessoas possível, também a leia.
Eu conheço muitas mulheres vítimas de algum tipo de violência de gênero. Na verdade, você conhece o mesmo tanto que eu, mas se não sente que são tantas assim, há 3 motivos para isso (já que os dados nos mostram que somos 3 em cada 4): 1. Elas não se sentem acolhidas para lhe contar; 2. Já superaram e não têm interesse em revisitar um trauma; 3. Não se dão conta que sofreram assédio. O terceiro caso não é pouco comum, uma vez que como sabemos, grande parte dos atos de violência é tão naturalizada que nem mesmo as testemunhas de um assédio se dariam conta de ter presenciado um.
Posso falar disso com alguma propriedade: em um dos lugares que trabalhei, onde o assédio moral era institucionalizado, eu sofria assédio sexual por parte de um colega de trabalho DIARIAMENTE. Todos os dias ele me tocava, falava comigo com os olhos semicerrados, fazia comentários sobre meu corpo, insinuações de cunho sexual, me chamava por apelidos que indicavam intimidade. E, todos os dias eu o repelia, algumas vezes aos gritos, demonstrando clara e publicamente meu constrangimento. E veja, não estou falando de chão de fábrica, eu não trabalhava com construção civil ou algo que justifique o estereótipo, eu trabalhava numa instituição de ensino superior e o colega também era professor. E quanto a reação dos meus colegas, homens e mulheres, foi a de deduzir que eu e ele tínhamos um caso. Por quê? Porque intimidação e constrangimento são compreendidos por muita gente como flerte… sim, que cultura cagada nós temos.
Não à toa, quando um outro colega no mesmo ambiente um dia se sentiu muito à vontade para puxar minha blusa na altura dos ombros para ver minha tatuagem nova, lembrando que eu tinha zero intimidade com ele, minha reação foi de choque, seguida de uma eterna revolta que até hoje não superei. Não supero a naturalidade e a certeza que um colega teve em acreditar que meu corpo era público e esteva disponível para que ele tocasse no horário de trabalho. Ressalto também que qualquer insinuação de que eu “teria dado a entender que queria”, como ouvi dos meus colegas em outro lugar quando meu chefe me agarrou à força no escritório dele, cai por terra quando lembramos que mulheres são estupradas mesmo mortas, mesmo idosas, mesmo vestindo burca, mesmo aos 4 anos de idade.
Então, talvez seja possível imaginar meu mal-estar ao conhecer em detalhes uma experiência diária que se assemelha a algumas experiências que tive e é muito difícil mensurar as consequências na vida de quem passa por isso quando penso que tendo sido bem menos exposta, eu não consegui superar até hoje. Isso porque a violência sexual acaba definindo nossas atitudes em relação não só ao sexo, mas em outras relações que não são românticas, como as profissionais, já que passamos a ficar em constante estado de alerta. A longo prazo, viver assim é devastador, porque mina nossa autoestima, nossa autoconfiança e nos mantém eternamente inseguras.
“Todos os homens se beneficiam da ação de homens violentos. Isso mantêm as mulheres em xeque. Isso permite que homens façam o mínimo e ainda se sintam bem consigo mesmos. A existência de homens violentos garante aos “bons” homens recompensas por decência básica.” Omoge Dami
Tudo isso pra dizer que, não há redenção possível para os homens que cruzaram o caminho de Kate e suas irmãs e colegas, porque, como sabemos, não são as condições insalubres que os fazem agir assim, mas uma cultura misógina que não nos enxerga como seres humanos, do contrário, ações globais não seriam necessárias se esse fosse um problema endêmico restrito aos campos de petróleo. O assédio contra mulheres (cis, trans, negras, pobres, ricas, idosas, jovens) é uma performance de poder que é cultural e global, com incidência em todas, ou quase todas, as esferas em que homens cis atuam, com maior ou menor gravidade dependendo das características de gênero, raça e classe que atravessam as vítimas.
Por fim, apesar da dor que me acompanhou durante a leitura, essa foi uma das melhores HQs que li nesse ano e gostaria muito que mais pessoas lessem e compartilhassem suas impressões.
P.S.: e para não dizer que não falei dos patos, eles estão lá. Você vai ter que ler para encontrá-los.
Daniela Marino é pesquisadora de quadrinhos e questões de gênero, graduada em letras, mestre em comunicação e doutoranda em ciência da informação.
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